A mais triste declaração no que toca ao Natal (ou nascimento) de Jesus Cristo está em João 1:11: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam…”. Muitos se interrogam porque é que Jesus foi rejeitado pelos seus mas, quanto a mim, a resposta não é difícil de dar. Os Judeus, apesar daquilo que as profecias diziam, esperavam por um Messias aparatoso, opulento, poderoso, guerreiro (possuidor de grande exército e poder bélico), rico e vencedor.
O Messias idealizado pelos judeus surgiria como um relâmpago e, de uma vez, venceria os romanos libertando a terra prometida do jugo, devolvendo-lhes a soberania e instituindo um reino de paz e prosperidade na terra acabando com a pobreza a que estavam votados, sobretudo, por causa dos pesados impostos que o império romano cobrava.
À vista de Jesus, nascido numa manjedoura, filho de uma família humilde oriunda de um lugarejo obscuro (Nazaré) e de forma pouco transparente (a história de Maria ter aparecido grávida sem que se tivesse relacionado com José a quem estava prometida não deverá ter sido bem digerida) os judeus interrogavam-se como é que aquele “messias”, ajudante de carpinteiro e que nada tinha de seu (nem sequer exército e armas) os poderia livrar.
Quando lembravam a Jesus a questão do reino ele lembrava que o seu reino não era deste mundo. Sempre que sabia que o queriam coroar rei refugiava-se em lugares desertos e ali orava. Quando alguém se dispunha a segui-lo ele lembrava que nada tinha (em termos materiais) para oferecer. A verdade é que Jesus era, em termos materiais, pobre dependendo de apoios, até de mulheres com posses, para poder sobreviver. Nasceu numa manjedoura tomada por empréstimo; quando precisou de um barco teve de o pedir emprestado; quando necessitou de uma montada pediu um jumento emprestado; quando precisou de uma sala para realizar a última ceia com os seus discípulos, teve de a pedir emprestada, morreu uma morte que não era a sua, numa cruz que não lhe pertencia e foi sepultado num túmulo emprestado por José de Arimateia.
Apesar desta pobreza material, que voluntariamente quis assumir, Jesus era rico. Na verdade pobres eram os ricos de seus dias (lembram-se da parábola do homem rico?)
O problema dos judeus, nos dias de Jesus, é semelhante àquele de que enferma a humanidade de nossos dias. Eles pensavam, como nós pensamos, que as nossas maiores necessidades são de origem material: O dinheiro e aquilo que ele pode comprar. É claro que os judeus, naquele tempo, eram religiosos; a maioria dos portugueses também (o nosso país foi considerado o 3º mais religiosos da Europa, só ultrapassado pela Irlanda e por Itália) mas isso não significa que sejamos menos materialistas; que pensemos de forma diferente dos judeus.
Lembram-se da história dos quatro amigos que transportando um paralítico e querendo leva-lo a Jesus, tiveram que abrir um buraco no tecto da casa superlotada onde Jesus estava para, com cordas, o baixarem até Jesus? Temos então um quadro em que os quatro amigos acham que o principal problema do paralítico é ser paralítico. Jesus olha para aquele paralítico e seus quatro amigos e, conhecendo-lhes o pensamento, a primeira coisa que diz é: “Perdoados te são os teus pecados” (Mc. 2:4,5) Posso imaginar os amigos (e o paralítico) a pensar; mas nós não viemos por causa disso; o que nos preocupa é o facto de ele ser paralítico…
É claro que Jesus não veio, prioritariamente, para instituir um reino terreno e libertar os judeus e o mundo da sua pobreza material. Ele veio, sobretudo para libertar a humanidade da sua pobreza, da sua miséria espiritual porque essa está na origem de todas as outras misérias.
É porque a maioria dos habitantes dos chamados países ricos estão doentes em termos espirituais que, por exemplo, faz com que eles discutam qual a água que possui melhor sabor; se a que tem sabor a limão, tangerina ou framboesa ou ananás enquanto que muitos seres humanos, nos chamados países pobres, não possuem sequer água potável para beber. É pelo facto da maioria dos habitantes dos países que integram a União Europeia estarem doentes, em termos espirituais, que lemos sobre as preocupações da Comissão Europeia quantos ao que fazer com os excedentes de cereais, lacticínios, legumes e frutos na União, enquanto que milhões morrem no mundo com fome.
Jesus não descura a importância de algumas coisas materiais que necessitamos, mas ele quer que tenhamos prioridades bem direccionadas. Por isso disse: “Buscai PRIMEIRO o reino de Deus e a sua justiça e todas as outras coisas vos serão acrescentadas”.
Se a fartura de coisas materiais nos pudessem transformar em pessoas verdadeiramente felizes então grande parte dos habitantes dos países ricos o seriam mas, pelo contrário, ouvimos cada vez mais falar dos obesos, dos que se atafulham de anti-depressivos, dos que se suicidam, dos se embriagam para esquecer o que nem eles sabem que devem esquecer; os que se drogam pelos mesmos motivos; infelicidade.
E entre os ricos e famosos vemos felicidade? Será que os que esticam a pele para parecerem eternamente jovens revelam felicidade? Reparem no seu sorriso plástico, que apenas colocam perante uma câmara de televisão ou o flash de uma máquina fotográfica…
E quem estica a pele não deve esquecer que isso não os vai impedir de, quando chegar a sua hora, esticarem o pernil…
Jesus mostrou-nos, por palavras e actos, o que deve estar em primeiro lugar. O que realmente merece ser valorizado porque o seu valor é eterno.
Jesus, apesar de em termos materiais ter vivido com tão pouco, era absolutamente feliz. Ele mostrou que a simplicidade clareia a nossa visão levando-nos a ver o que realmente importa, enquanto que a fartura, associada á ganância, apenas nos turba a visão tornando-nos loucos, infelizes e eternamente condenados.
Jesus veio, aparentemente, sem nada mas com capacidade de nos dar aquilo que mais necessitamos: Salvação, vida com sentido, certezas quanto ao presente e futuro e paz.
É por isso que a Bíblia diz que Jesus “Sendo rico por amor de nós se fez pobre para que, pela sua pobreza, enriquecêssemos” (II Cor. 8:9)
Felizmente que João capítulo um, para além do v. 11 também tem o v.12: “ Mas, a todos quantos o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”.
É por isso que a mensagem do Natal é de esperança.
José Carlos Oliveira
| < Anterior | Seguinte > |
|---|




